Mistura de crenças, cânticos e fiéis reunidos em frente à igreja marcam festejos a Santa Bárbara

As primeiras horas deste sábado (4) foram marcadas por demonstrações de fé e reverência à Santa Bárbara e Iansã, no Centro Histórico de Salvador. Vestidos como de costume, em grande maioria de vermelho e branco, os devotos demonstraram gratidão pelas promessas alcançadas e pediram proteção. O dia de Santa Bárbara abre os festejos populares em Salvador.

Ainda neste sábado, acontecerá a transmissão da Live Cultural em louvor a Santa Bárbara, às 15h.

Centenas de devotos esgotaram as vagas de agendamento para assistirem as três missas realizadas na Igreja Nossa Senhora do Rosário, no Pelourinho. Nem mesmo o tempo fechado e a possibilidade de chuva impediu que centenas de pessoas aguardassem do lado de fora do templo religioso. A espera era também uma esperança de chegar mais perto da imagem de Santa Bárbara.

A santa, de origem turca, é celebrada na Bahia entre os católicos e os adeptos do candomblé, já que no sincretismo religioso, ela representa Iansã, orixá dos ventos e da natureza.

Como em 2020, por causa da pandemia do coronavírus, a festa deste ano não seguiu a tradição de ter uma missa campal no Largo do Pelourinho, aberta para milhões de pessoas, além da procissão.

Tradicionalmente, no dia de Santa Bárbara, a imagem deixa a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos e é levada para o palco no Largo do Pelourinho. De lá, a procissão segue para o Quartel do Corpo de Bombeiros, corporação que tem Santa Bárbara como padroeira, também na região do Centro Histórico.

Andor com imagem de Santa Bárbara e ao fundo Nossa Senhora do Rosário, em Salvador — Foto: João Souza/g1

Andor com imagem de Santa Bárbara e ao fundo Nossa Senhora do Rosário, em Salvador — Foto: João Souza/g1

Após esgotar as vagas para acompanhar as missas presenciais, foi recomendado pelos organizadores da festa que os devotos acompanhassem as celebrações ao vivo, através do canal da Irmandade dos Homens Pretos – Salvador. No entanto, quem estava do lado de fora da Igreja do Rosário dos Pretos alegou que precisava estar próximos da santa.

Do lado de fora dos portões do tempo religioso com mais de três séculos, muitos devotos entoaram cânticos religiosos, rezaram e bateram palmas, mesmo com a ameaça constante de chuva. “Bárbara guerreira, rainha dos astros, dona dos trovões, deusa da trovoada”, cantaram.

Também do lado de fora, teve quem optou por receber os tradicionais banhos de água benta, folhas e arroz. Além disso, algumas pessoas ofertaram mini acarajés para quem estava presente no local.

‘Com toda fé que eu tenho nela’

Fiéis recebendo o tradicional acarajé, que é ofertado durante as celebrações de Santa Bárbara, em Salvador   — Foto: João Souza/g1

Fiéis recebendo o tradicional acarajé, que é ofertado durante as celebrações de Santa Bárbara, em Salvador — Foto: João Souza/g1

Uma dessa devotas, mesmo com a pouca idade, 11 anos, estava empolgada na distribuição dos quitutes baianos.

“Eu entrego os acarajés desde pequenininha. Acredito muito em Santa Bárbara”, contou Vera Lúcia, que estava acompanhada da mãe, ambas vestidas de vermelho.

E não foi só a menina que decidiu presentear os outros devotos com acarajés.

Cristiane Souza celebrou Santa Bárbara  — Foto: João Souza/g1

Cristiane Souza celebrou Santa Bárbara — Foto: João Souza/g1

Cristiane Souza já era devota de Santa Bárbara, mas há sete anos passou a ofertar o alimento após fazer uma promessa. O pedido foi quando ela estava presa em um banheiro e não conseguia sair.

Segundo a devota, em pânico e depois de muitas tentativas, ela só conseguiu abrir a porta do local e sair após a ajuda de Santa Bárbara.

“Com toda fé que eu tenho nela, eu chamei ela e abriu. Eu já tinha uma fé muito grande e agora maior ainda”, revelou.

Aidil Santos e família — Foto: João Souza/g1

Aidil Santos e família — Foto: João Souza/g1

Quem também foi agradecer por causa de uma promessa foi Aidil Santos. Há três anos, a idosa pediu a Santa Bárbara que empregasse a filha, Aidilma Santos, que estava desempregada. Após ser ouvida, a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos passou a ser visitada pelas duas sempre no dia 4 de dezembro.

“Tem três anos que eu venho para agradecer uma promessa. Eu pedi uma oportunidade de emprego para minha filha [Aidilma], que já tinha dois anos desempregada e ela conseguiu”, contou Aidil Santos.

Márcio Cidreira vendeu adereços de Santa Bárbara na frente da igreja — Foto: João Souza/g1

Márcio Cidreira vendeu adereços de Santa Bárbara na frente da igreja — Foto: João Souza/g1

A grande circulação de devotos no Centro Histórico neste dia da santa também foi de oportunidade para muitos comerciantes que ofereciam, a todo instante, camisas e canecas com imagens de Santa Bárbara, além de flores e as tradicionais fitas.

“Vendemos standards, bolsinhas para colocar dinheiro. Muitos devotos aproveitam para comprar adereços da santa”, disse o comerciante Márcio Cidreira.

Rosas que são vendidas aos fiéis para que eles possam homenagear Santa Bárbara, em Salvador — Foto: João Souza/g1

Rosas que são vendidas aos fiéis para que eles possam homenagear Santa Bárbara, em Salvador — Foto: João Souza/g1

Padroeira dos bombeiros

Santa Bárbara é padroeira do Corpo de Bombeiros  — Foto: Max Haack/Ag. Haack

Santa Bárbara é padroeira do Corpo de Bombeiros — Foto: Max Haack/Ag. Haack

De acordo com historiadores, em Salvador, o culto à santa acontece desde 1641. São 380 anos de uma devoção que surgiu com a instituição do chamado “Morgado de Santa Bárbara”, um conjunto de imóveis dedicados à santa que ficava ao pé da Ladeira da Montanha.

Após um incêndio que destruiu o morgado, a imagem de santa foi transferida para a Igreja do Corpo Santo e, posteriormente, para a Igreja de Nossa Senhora dos Pretos.

Oferta de caruru

Tradicional entrega do caruru em 2016 — Foto: Max Haack/Ag. Haack

Por causa da pandemia, o tradicional caruru distribuído pelo Corpo de Bombeiros Militar da Bahia em homenagem a Santa Bárbara, foi distribuído em 600 quentinhas para os moradores de comunidades da capital baiana.

De acordo com pesquisadores, a escolha do caruru para homenagear Santa Bárbara tem a ver com a relação entre os orixás Iansã e Xangô. O quiabo é um alimento ligado à dinastia de Xangô, e segundo as tradições, unifica uma das cortes dos candomblés, formada por Xangô, Iansã, Obá, Ibejis e Ia Massê Malê ou Baiane.

Festas populares da Bahia

Fitas que foram vendidas durante os festejos a Santa Bárbara, em Salvador  — Foto: João Souza/g1

Fitas que foram vendidas durante os festejos a Santa Bárbara, em Salvador — Foto: João Souza/g1

Após os festejos de Santa Bárbara, o calendário de Festas Populares da Bahia terá a festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do estado, no dia 8, e depois Santa Luzia no dia 13. No dia 1º de janeiro é a vez da Procissão de Bom Jesus dos Navegantes e da Festa da Boa Viagem.

Em seguida, em janeiro, é a vez da lavagem do Bonfim, e em fevereiro, a festa de Iemanjá. O ciclo dos festejos populares é encerrado com o Carnaval, que, como em 2021, pode não acontecer.

Veja a ordem das festas populares baianas:

  • Festa de Santa Bárbara – 4 de dezembro
  • Festa de Nossa Senhora da Conceição, padroeira do estado – 8 de dezembro
  • Festa de Santa Luzia – 13 de dezembro
  • Procissão de Bom Jesus dos Navegantes e festa da Boa Viagem – 1° de janeiro
  • Lavagem do Bonfim – 13 de janeiro
  • Festa de Iemanjá – 2 de fevereiro
  • Carnaval – ainda não há definição sobre a realização

Post Author: Redação

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