Líderes dos tradicionais blocos de samba de Salvador falam sobre ano sem carnaval e celebram Riachão

Esta sexta-feira (12) já seria o segundo dia do carnaval de Salvador. Na capital, a maior festa de rua do país começa com o tradicional desfile dos blocos de samba, que levam a alegria, gingado e a resistência do povo negro para a avenida.

Como já dita o velho samba: “o show tem que continuar”. E continuou para o Alvorada. Mesmo durante a pandemia, o bloco manteve quase todas as atividades sociais durante todo o ano, claro que virtualmente.

O presidente Vadinho França detalha que os planos de conclusão do documentário sobre os 45 anos do Alvorada foram pausados, mas a produção seguirá assim que a situação da pandemia se regularizar.

“Após os 45 anos, tínhamos como plano terminar o documentário, que foi iniciado ano passado, e a gente também queria terminar o terceiro CD, mas a pandemia parou tudo. Nós continuamos fazendo as atividades, de maneira remota. Em setembro, por exemplo, fizemos um evento virtual falando sobre três pilares de matriz africana: a devoção, a culinária e o samba”, explica Vadinho.

“Só não tivemos samba porque samba aglomera. É o calor do povo, a união, não tem jeito”, diz Vadinho, presidente do Alvorada.

Para sustentar as atividades e o trabalho de todas as pessoas envolvidas por trás delas, o bloco Alvorada foi um dos contemplados pela Lei Aldir Blanc. Foi a partir desse suprimento financeiro que os eventos virtuais puderam ser realizados.

“Nós aproveitamos para mostrar como foi fundado o Alvorada. Em um, fizemos uma live com os quatro fundadores, foi muito emocionante. Nós também fizemos com a sambista Juliana Ribeiro, para falar sobre importância do samba, como excelência para o Alvorada. Também tivemos uma live com uma professora de dança. Foi muito importante esse projeto, para mostrar a diversidade do samba”.

Desfile do Bloco Alerta Geral, no circuito Campo Grande, em 2018 — Foto: Reprodução / TV Bahia

Desfile do Bloco Alerta Geral, no circuito Campo Grande, em 2018 — Foto: Reprodução / TV Bahia

Já outro grande bloco de samba, o Alerta Geral, não teve a mesma oportunidade. Sem o apoio financeiro, o grupo não teve como fazer atividades. Sem carnaval, a situação se agrava ainda mais, como explica o presidente Zé Arerê.

“Financeiramente está ruim para todo mundo. Como não tem carnaval, zera a verba. Aí a gente tem músicos sem dinheiro, equipe de trabalho sem dinheiro. O carnaval gera muitos empregos no samba e em tudo. Mas a gente tem que respeitar também essa pandemia, para acabar tudo na paz”.

Saudosos por ver tanta gente junta desfilando na avenida, os sambistas estão emocionados desde o início da semana e vão se apegando às lembranças e desejos futuros que podem. Zé Arerê, por exemplo, espera a comemoração em grande estilo para o ano que vem.

“É triste, mas nós temos que nos cuidar também para as coisas não serem piores. E a gente segue pensando no carnaval de 2022, não tem jeito. Eu vou comemorar 50 anos de samba na avenida, então estou pensando muito nisso”.

Alerta Geral leva multidão ao Campo Grande — Foto: Enaldo Pinto/Ag Haack

Alerta Geral leva multidão ao Campo Grande — Foto: Enaldo Pinto/Ag Haack

“O coração fica triste sem carnaval”, diz Zé Arerê, presidente do Alerta Geral.

Vadinho França botaria o bloco na rua na noite desta sexta. O presidente do Alvorada conta que passou a semana pensando no que iria fazer sem o carnaval, e encontrou uma forma de confortar o coração.

“Eu já me emocionei muito, me passa um filme na cabeça. São 46 anos fazendo isso. Eu estava preocupando com o que eu ia fazer nesta sexta-feira, mas eu acredito que todas essas atividades que nós fizemos e fazemos conforta um pouco o coração. Ninguém imaginaria que nós teríamos em uma situação dessa”.https://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

“Temos que ser resignados, porque a culpa não é nossa. Nós temos um legado no Alvorada, uma história muito firme no samba, que vai seguir por muitos anos”.

Riachão rima com saudade

Riachão — Foto: Divulgação

Riachão — Foto: Divulgação

Esse ano, o carnaval dos sambistas seria de homenagens a Clementino Rodrigues, o grande Riachão. Ícone do bairro do Garcia, Riachão morreu aos 98 anos, após sentir fortes dores abdominais em março de 2020 – no comecinho da pandemia.

Figura conhecida pelo seu bom humor, inteligência safa e pela icônica toalhinha que carregava sempre com ele, Riachão foi e é um dos mais importantes sambistas do país, porque como diz Zé Arerê: “O bom poeta não morre”.

“Carnaval sem Riachão é uma tristeza. Ele é o mais puro símbolo do carnaval da Bahia e da própria Bahia. Na lavagem do Garcia, por exemplo, ele dava aquela alegria na casa dele. Esse ano, sair na avenida sem Riachão ia ser de uma tristeza grande. Mas ele está na mente de todo mundo, porque é o samba”, complementou Zé.

Riachão em seu último carnaval em Salvador, em 2020 — Foto: Enaldo Pinto/Ag Haack

Riachão em seu último carnaval em Salvador, em 2020 — Foto: Enaldo Pinto/Ag Haack

Vadinho também falou sobre o ídolo que conquistava a todos pelo carisma, talento e imponente presença.

“Riachão tem um negócio, que ele roubava a cena. Você poderia ir com a rainha da Inglaterra e era ele quem roubava a cena”.

“Ninguém era igual a ele, ele era diferenciado pela maneira de ser. Era uma pessoa que não conseguia ficar quieta, com muita vitalidade. Um homem importante. Tão importante que teve várias músicas gravadas por tantos outros nomes importantes. As pessoas gravaram aquela qualidade, vieram beber da fonte dele.

Enquanto o próximo carnaval não chega, os sambistas acalentam o coração com os versos de “Choro número 1”, do mestre Riachão.

“Me diga quando quer voltar
Por que aqui estou contente, ali estará
Um violão e um cavaquinho, meu bem
Uma boa flauta e um bandolim também
Não vai faltar o reco-reco, xique-xique, tamborim
Para fazer
Bonita marcação, meu coração
Que anda cheio de amizade, de saudade
Tudo que o chorinho tem”

fonte: G1

Post Author: Redação

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