SORRISO DE GRATIDÃO

Nada faz sentido além da preservação da vida e, falando assim, tudo parece lúdico e distante da realidade, todavia, se nos atermos aos detalhes que nos cercam poderemos constatar que esta preservação se faz infelizmente em ritmo lento se comparado à rapidez da devastação que se opera.
Enquanto poucos se dedicam a criar e a reconstruir, uma infinidade de zumbis operam desgovernadamente o já conquistado ou existente sem qualquer maior consciência, como se fossem apenas sombras enlouquecidas em um bailado infernal.
Não há senso real de absolutamente algo relevante à vida, mesmo quando as aparências forjam o engano.
A massa humana como ovelhas seguem aos bandos, num rumo determinado pelos pastores, travestidos de insignias de proteção que não ultrapassam os limites deles mesmos.
E aí, num estalar de dedos, a vida se perde na unidade isolada ou num conjunto, enterrando intenções que jamais se concretizaram em propósitos, abrindo ainda mais a lacuna, descortinando o imenso vazio inexoravelmente presente, sem disfarces que nos console.
Passado os instantes de susto e de dor, dizemos que a vida prossegue e nada ou quase nada mudamos, sendo abafados pela inoperância de nossa vontade voluntária que não é capaz de verdadeiramente dimensionar a vida em toda a sua completude.
Remendamos aqui, remendamos ali, mas entre um ponto e outro de nossa costura de remendos, persiste o espaço da nossa pequenez de tão somente não rasgar a perfeição.
Não temos limites, porque queremos sempre mais, não temos consciência para reconhecer que já possuímos tudo e que a nossa tarefa é de apenas sorver e usufruir, mantendo polido, limpo e arejado o que nos já foi ofertado.
Parece piegas e na realidade o é em meio a um sistema que dizem ser humano, mas que na realidade é tão somente de uma raça grotesca que transformou a potencialidade de sua mente em prodígios da destruição.
Para os raros que pensam na preservação do tudo, deixo aqui o meu sorriso, expressão máxima da minha gratidão.

Regina Carvalho, carioca, professora,
publicitária, filósofa social e colunista,
membro da Academia de Letras do Recôncavo.
Natural do Rio de Janeiro. 39 anos da vida dedicados
a escrever em jornais de Minas, Brasília e Bahia.
Locutora e diretora da Rádio Tupinambá, FM – Itaparica
e editora do Jornal Variedades – Itaparica – BA.