LÁGRIMAS DE VERGONHA

Neste sábado chuvoso, percebo a minha alma nublada pela conscientização dos horrores do mundo.
Penso nas falácias nas quais me deixei envolver e no lúdico da forma com que encarei as crueldades sociais, pensando num forjar ingênuo, que combatia as desigualdades, com meus escritos e falas e minhas corridas de socorros sociais, amparada como sempre estive nos modelos pré-fabricados de fraternidade e solidariedade ao próximo.
Enveredei-me pelas filosofias humanas e emocionais, buscando entender mentes e sentimentos que norteavam os relacionamentos de qualquer natureza e, em certo momento, esbarrei no sistema político e por ele me interessei a ponto de me sentir apaixonada e me deixar abraçar por ideias e ideais que me pareceram os mais acertados caminhos no combate a esta chaga desalmada que é a desigualdade social que abriga, como carrasca cruel, a maldita fome.
Qual nada, os anos e a vivência vêm me mostrando o horroroso engodo, que se articulado se mostra de tempos em tempos, diversificadamente vestido se apresenta, mas indubitavelmente, escondendo em seu interior um conteúdo perverso, desalmado e bruto, chamado interesse coorporativo.
O olhar esbugalhado, estático e sem qualquer vida da fome explicita, mais que me assustar, remete-me a uma imensa vergonha da raça humana da qual faço parte, acreditando em falsas dores, buscando compensações pessoais, brigando por nada que seja verdadeiramente relevante a qualquer mínima dignidade pessoal, enquanto, o corpo e a alma da maioria dos sem rostos que os identifiquem e que se multiplica são apenas duras estatísticas, nem mais chorar conseguem, frente à solidão de seu abandono existencial.
Que se dane este ou aquele político, que se dane a mim que sempre tive tudo, que se dane a hipocrisia que nos acompanha, levando-nos a camuflar o monte de nada que na realidade somos.
Reconhecer a impotência quando desnudamos a nossa própria vergonha, diante das dores do mundo, causa a dor que ora sinto, nesta manhã de um sábado de vida para uns e de fome e abandono para muitos, num despertar dolorido que na realidade, também em nada consola.
Que se matem, políticos, banqueiros, corruptos e apoiadores nas arenas, na busca dos status e poderes, e que estrebuchem na lama que ajudaram a produzir…
Vaidade maldita, guilhotina afiada da ignorância.

Regina Carvalho, carioca, professora,
publicitária, filósofa social e colunista,
membro da Academia de Letras do Recôncavo.
Natural do Rio de Janeiro. 40 anos da vida dedicados
a escrever em jornais de Minas, Brasília e Bahia.
Locutora e diretora da Rádio Tupinambá, FM – Itaparica
e editora do Jornal Variedades – Itaparica – BA