DESOLADA

E aí, de todas as minhas incompreensões em relação às posturas e avaliações humanas, existe um aspecto que sinceramente foge à minha lógica de entendimento, ou seja; como uma pessoa pode se horrorizar com um assassinato, um estupro e desconsiderar um crime de corrupção pública?
A ausência do sangue explicito ou das dores emocionais e sistêmicas no que se inclui a fome , a miséria e as mortes por falta de total assistência de todas as naturezas das vítimas e dos algozes, empana a empatia, a solidariedade e a repulsa de algumas pessoas que, afinal, não são assim tão poucas e que me levam a pensar que, verdadeiramente, somos uma raça chamada humana sem qualquer entendimento no tocante a vida.
Apontamos o dedo e gritamos por justiça em relação ao preconceito, ao feminicídio e a tantos atos repugnantes que nós, seres ditos humanos, somos capazes de produzir com nossas mãos e mentes, mas desculpamos, apoiamos e defendemos até as nossas forças se esgotarem a todo aquele que desvia dinheiro público, lesando e matando um sem número de pessoas independentemente de serem brancos, negros, gays, crianças, jovens ou velhos e, o que ainda é pior, não acreditando que toda essa desgraceira nos atinge diretamente, tirando de nós a bendita liberdade até mesmo para criarmos em nossas mentes redutos de conhecimentos, mesmo que rasteiros, sobre a vida, convivência, política e, principalmente, sobre bem-comum.
A história da humanidade mostra sem véus de camuflagem que esta é uma característica que existe numa parte significativa da raça humana, onde não há em suas mentes qualquer real empatia em relação a própria raça, mantendo um abismo arrogante e doentio, onde o eu e você se apresentam de forma cruel, separatista, burra e inominável, quando o portador desta característica de personalidade possui estudos que deveriam ter-lhe proporcionado amplitude de visão, no mínimo humanista.
É, estou no outono de minha vida e ainda não consigo compreender a pequenez humana.

Regina Carvalho, carioca, professora,
publicitária, filósofa social e colunista,
membro da Academia de Letras do Recôncavo.
Natural do Rio de Janeiro. 39 anos da vida dedicados
a escrever em jornais de Minas, Brasília e Bahia.
Locutora e diretora da Rádio Tupinambá, FM – Itaparica
e editora do Jornal Variedades – Itaparica – BA.